quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Quer casar comigo?


Aquela pergunta não lhe saia da cabeça. Por quantos anos esperou, ansiosamente, por aquele momento? Sua mãe sempre dizia: “mulher que não casa não tem serventia nesse mundo”. Ela já beirava os trinta anos. Era jovem ainda ou já se tornara uma encalhada? “Tristes das mulheres que não encontram marido. Tornam-se noviças ou ficam para titia mesmo, dando trabalho aos parentes pelo resto da vida. Pobre sina essa que as mulheres de outrora temiam...” pensava Lívia, com suspiros prolongados, assim como os pensamentos. 

Pela janela da sala lúgubre, de paredes brancas e mobília gasta, a mulher de cabelos longos, pretos em contraste com a pele clara – quase transparente – observava as pessoas que passavam. Muitos iam solitários, seguindo a escuridão da noite. Outros passavam acompanhados, rindo a esmo, traçando planos compartilhados. E ela estava ali, com quase os seus trinta anos, sentada em uma cadeira de balanço e espiando a rua pela janela.

A vida passa depressa... Como, então, recusar um pedido de casamento? Mas as coisas estão tão mudadas... Será que o melhor não seria aproveitar a vida de solteira, saindo, rindo, dançando, conhecendo pessoas novas? Para isso, ela teria que ultrapassar aquelas paredes brancas e, pior que isso, esquecer os preceitos que a sua mãe fez questão de lhe ensinar, por toda a vida. Não, não. Isso é bobagem. Lívia sabia muito bem que a mulher, para ser mulher realmente, tem que ter casa, marido, casa cheia de filhos. Ela sabia que nascera para isso, porque, então, esses pensamentos agora? 

A brisa da noite penetrou com força, de repente, a janela da sala, interrompendo as divagações da mulher solitária. Os quadros pregados nas paredes levavam Lívia a imaginar a vida daquelas que foram as suas antepassadas. Teriam elas sofrido as mesmas aflições, quando tomadas pela proposta que todas as mulheres anseiam receber?  Ela nunca haveria de saber.

Namorado nunca tivera, apesar de ter feito certo sucesso com os garotos da Rua da Mangueira, onde viveu, praticamente, toda a infância e adolescência. Mas a timidez e as convenções sociais da mãe não permitiram que um “amor de verão”, ou um “amor para a vida toda”, surgisse. Por isso, ela não sabia como reagir num momento como este. O susto, o medo, a dúvida e a felicidade decidiram atuar em um só momento. As pernas tremeram, o coração disparou e as palavras decidiram fugir. Todas na mesma velocidade. Quer casar comigo? Sim, quero. É tudo o que eu quero. Tudo que eu sempre quis. Era isso que ela gostaria de ter dito, mas não podia, porque o momento era outro e as palavras fugiam incansavelmente e inalcançavelmente. 

O tempo passou e ela não percebeu. Era a hora de fechar a janela. Levantar da cadeira de balanço que, há muito tempo, tornara-se a sua única companheira nas noites intermináveis de ilusões. O vaivém da cadeira fazia-a viajar em situações, em momentos nunca vividos. Lívia tremeu, hesitou, emocionou-se. Mas não precisava responder ao pedido. Quer casar comigo? é uma frase que ela nunca teve a felicidade de ouvir. 

Na verdade, a proposta foi do mocinho para a mocinha da telenovela. Aquela, bem melodramática, que a solteirona não deixava de assistir. Se a mocinha respondeu sim ou não, Lívia não sabia. Ela estava a imaginar-se no seu lugar. Saiu da cadeira, fechou a janela e foi para a cama vazia, que nunca sentiu o calor noturno de uma alma masculina. 

Edilane Ferreira
Graduanda do 6º período de Jornalísmo em Multimeios da UNEB

sábado, 24 de setembro de 2011

A Santa


Já passara dos oitenta anos, embora aparentasse cinqüenta. A voz continuava a mesma de quando tinha seus vinte anos. Os cabelos, porém, já não eram os mesmos. O rosto também não. As mãos? Tão calejadas, que as crianças da rua já não pediam a bênção.

Dona Luzinha era mais conhecida como dona mocinha. Mocinha, porque a virgindade tão conservada, nunca fora tirada. No Bairro Alagadiço, um dos mais antigos da cidade de Caracas, dona Mocinha era considerada uma santa. Nunca se casou, embora possuísse todas as qualidades domésticas para um relacionamento matrimonial, e nunca se envolveu com nenhum homem. Não que ela tivesse relatado isso a algum vizinho, porém era isso que todo o bairro imaginava: ela é, sem dúvida, virgem.

Dona Mocinha ensinava as noivas do bairro como cozinhar bem, cuidar da casa, costurar. Apesar de nunca ter gerado um filho, era considerada mãe. Quem precisava de conselho, lá estava ela. Recebia o rico e o pobre, o limpo e o sujo com o mesmo sorriso radiante. Era como um padre que guardava até os mais bizarros segredos. Inúmeras estórias eram divididas com dona mocinha. Brigas matrimoniais, separações, amores impossíveis, traições, mentiras. Quem estava triste, logo ficava radiante. Quem estava nervoso, se acalmava ao ouvir sua voz serena. O vizinho, que sofria com as aflições de não ter trabalho, começava a crer na força de vontade e perseverança. O colo, o cafuné, poucas palavras eram suficientes para acalmar qualquer coração desolado.

Dona Mocinha, além de toda sua bondade e solidariedade, era considerada a mais católica de todas as mulheres do bairro. Todo o dia estava lá, de joelhos pedindo perdão, mesmo sem ter pecado. Pelo menos era o que seus admiradores imaginavam. Mulher de fé, moral inabalável. O céu a esperava. Só poderia ser esse o lugar de uma mulher seguidora dos bons costumes e que, em momento algum, se entregou aos pecados da carne. Santa dona Mocinha. Se o bairro Alagadiço pudesse, a canonizava.  Os brasileiros, então, teriam uma nova santa.

A fama de dona Mocinha era grande. Popularizou-se de um jeito que nem mesmo ela imaginara. Na verdade, ela nem premeditara. Ela virou a santa Mocinha sem fazer milagres. Era uma sexta-feira. Enquanto o Brasil vibrava com o programa do Chacrinha, dona Mocinha resolver folhear um livro. Passou toda a tarde tentando decifrar cada palavra. Isso não foi possível, mas as letras, ela reconhecia facilmente. Escureceu. E quando ela estava quase dentro de casa, escuta uns gritos. Era uma jovem depressiva que ameaçava se jogar do quinto andar. Só não se entregara à morte, porque dona Mocinha usou as palavras certas, o olhar encorajador e a voz tão doce, tão doce que a pobre garota cedeu aos seus encantos. Depois disso, dona Mocinha acompanhou todo o tratamento psicológico e a gravidez da garota. Tratava a menina como uma mãe, o garotinho como seu neto. Desde então, dona Mocinha passou a ser conhecida e adorada por todos da vizinhança.

Anos depois, quando pensava que a morte estava próxima, eis que um levantamento bibliográfico em Palafitas, cidade natal de dona Mocinha, surgiu para mudar toda a sua vida. Um grupo de estudantes da Universidade de Palafitas produziu um livro-reportagem intitulado “As quengas de Palafitas: o Bordel que fundou a cidade de Palafitas, no interior de Pernambuco.” A reconstrução da história dessa cidade foi tão polêmica que virou notícia de rádio, revistas, on-lines, jornais, TV’s. Até prêmios, os alunos ganharam com o tema. E uma das premiações foi a publicação da reportagem na revista “Cidades” que circula em todo o país. Circulou tanto que essa revista foi parar na banca da esquina da cidade de dona Mocinha.

Na capa, as prostitutas do cabaré das Palafitas. No interior da edição, a história da prostituta mais cobiçada do cabaré: “Lulu Desejo”. Lulu Desejo era linda. Olhos azuis, cabelos lisos e sedosos, a pele de cor de canela. Morena dos olhos azuis. Bastava os clientes fitarem os olhos que eram enfeitiçados. O destino: o quarto e 500 cruzeiros. Ela praticamente fundou o cabaré. Foi a primeira prostituta.

Menina do mato, passava fome e fora vendida pelos pais à senhora Zuleica, dona do Cabaré. Quando Zuleica chegou em Palafitas era só terreno e BR para vários lugares do país. Percebendo que muitos caminhoneiros ali paravam, ela resolveu fazer uma casa de repouso. Mas os caminhoneiros queriam sempre algo mais. Mulher, então, era o que mais desejavam. Zuleica, então, resolveu fazer o teste.

Disponibilizou a pequena Luzia. E num é que deu dinheiro. Como toda negociante, pensou longe. Comprou mais meninas. Algumas vinham até com as famílias que foram povoando Palafitas. Em um ano, a cidade já tinha muitos habitantes. A economia durante muito tempo foi movimentada pelo bordel. Era a menina da limpeza, o garçom, o porteiro, o Bar Man, o motorista, as prostitutas. O bordel virou cidade.

Na revista, o diário de Lulu Desejo. A integrante mais antiga havia fugido. Esqueceu de se proteger e engravidou do marido de dona Zuleica. Traiu a mulher que lhe dera a mão e ainda ia dar ao seu esposo o filho que ela não podia gerar. Como um cangaceiro pulou de cidade em cidade até encontrar alguém para fazer um aborto. Quando encontrou, entrou em profunda tristeza. Depois de conhecer uma senhora católica, que lhe acolheu, se arrependeu de tudo que fizera. Mas, já era tarde. Aquela linda garota, ao poucos, se tornou uma idosa também. Saias longas, blusas longas. O cabelo todo enrolado. Depois da morte da velha católica, partiu para a cidade de Caracas e foi morar no bairro Alagadiço. 

Viveu lá até ir à banca de revista e ver sua foto, em tempos de juventude, estampada na capa da revista. Mãos trêmulas, lágrimas a cair. O coração acelerou tanto que, quando parou, foi de vez. Sem nada falar, sem nada pedir, morreu a mulher mais ética, mais correta, a santa. Agora a única lembrança é a estátua em homenagem à santa Mocinha.

Michelle Laudilio
Graduanda do 6º período de Jornalismo em Multimeios da UNEB

"Saudade sim, Tristeza não"




Era noite de domingo, nove de julho de 2001. Francisca Leandro estava em casa com o filho mais velho quando o telefone toca. Do outro lado da linha, recebeu a notícia mais dolorosa de sua vida: o filho caçula, Ubirleide Leandro, sofreu um acidente perto da cidade de Caxias e estava internado em estado grave.

Na verdade, Ubirleide já estava morto. Mas preferiram prepará-la antes de dar a informação triste.  Como dizer para uma mãe que seu filho, aos 21 anos e sete meses, no auge da juventude, não iria mais comer tomate e manga verde com sal, sentar com os amigos para tomar aquela cervejinha ou pular carnaval?Coisas que adorava fazer. Sem falar dos planos e projetos futuros interrompidos em fração de segundos.

Depois de resolver os trâmites legais, na terça-feira pela manhã o pai chega a casa da família com o corpo do filho. O clima no velório era de sobriedade. A alegria e as brincadeiras de Ubirleide já não existiam mais.  No rosto dos familiares e amigos, apenas sofrimento. Ao mesmo tempo, Francisca era confortada, a dor que percorria suas entranhas, era semelhante a que sentiu quando o colocou no mundo. “Senti dores, iguais as do parto”, declara ao tentar descrever o momento. 

Chega a hora do sepultamento. Talvez a mais difícil, pois é a despedida. Na volta pra casa Francisca, reuniu forças para terminar de preparar os rituais fúnebres. “Passei uma semana organizando lembrança e missa do sétimo dia”, lembra.

A morte prematura do filho trouxe uma reconfiguração do ambiente familiar e da rotina de Francisca. Assim como o filho mais novo e o marido, também dirigia caminhão. O trauma da perda a fez mudar a atividade profissional. Para suportar a saudade de Ubirleide, passou a ir diariamente ao cemitério. “No início levava flores, acendia velas, rezava e chorava muito no túmulo dele”, conta.


Seis meses depois do sepultamento, dona Francisquinha, como é carinhosamente chamada pelos coveiros, construiu o jazigo da família e transferiu os restos mortais do filho. No momento da transferência do tumulo para mausoléu abriu o caixão. O corpo de Ubirleide inerte parecia ter a mesma aparência de quando estava vivo, o que a emocionou profundamente. A partir daí, além das flores que costumava levar, passou a depositar no túmulo objetos que tinham significado para ele.

Anos depois, a rotina de dona Francisca é a mesma. O dia começa cedo no terminal de ônibus da cidade. Arruma as plantas e o tabuleiro de doces e queijos que serão comercializados no decorrer do dia. No final de tarde, vai com o marido para o cemitério visitar o túmulo do filho, ritual que já dura uma década. “Enquanto for viva, não deixo de ir lá”, comenta. A única vez que deixou de visitar o filho foi quando quebrou o pé e o marido estava viajando. Ela ainda assim queria ir ao cemitério, mas não havia quem a levasse.

Dona Francisa é uma mulher de poucas palavras, monossilábica. A força dela vem das adversidades.Todos os dias, por volta das cinco e meia da tarde, ela segue em sua caminhonete vermelha carregada de plantas para o cemitério. Enquanto seu Severino conversa com o coveiro, ela percorre os corredores estreitos do local, entre uma cova e outra, até localizar o túmulo do filho.

Ao chegar ao mausoléu da família, com fachada em mármore e portão metálico dourado forrado com tela, começa a arrumá-lo. À noite, uma porta também dourada típica de estabelecimentos comerciais é baixada para impedir furtos.  O ambiente é nostálgico. Uma tolha branca de linho cobre o túmulo. Nas laterais dois pufes que acompanham tapete e almofada. No quadro, a fotografia de Ubirleide vestido com um abada de carnaval. As prateleiras com objetos de decoração, vasos com arranjos de flores naturais e latinha de cerveja, refrigerante, frutas e um recipiente com sal de cozinha. “Essas coisas demonstram o que ele gostava”, diz dona Francisca sobre o sentido de trazer esses objetos para o cemitério.

O zelo ao jazigo, ao longo desses anos, foi a maneira que encontrou para lidar com a tristeza, a dor da perda. “É como se aqui fosse a casa dele. Penso que não morreu, apenas se mudou para outra cidade e um dia volta”, declara. Agora, ela pensa em reformar o jazigo. Tapete, toalha e jarros vão ser trocados para compor a nova decoração que será azul. Cada objeto exposto revela o amor e cuidado em preservar a memória do filho. “onde ele estiver vai ver o carinho que sinto por ele”, conta.

A preocupação de dona Francisca é que o túmulo de Ubirleide não fique abandonado quando vier a faltar, por isso já avisou a família que quer ser enterrada em sua terra Juazeiro do Norte e os restos mortais do filho devem ser transferidos e colocados no mesmo mausoléu com os dela. “Quero que fique junto de mim”, declara. Ela acredita que a morte traz tristeza e Deus não quer tristeza. "Saudade, sim... tristeza, não".

Por Josélia Moraes (texto e foto) e Paloma Aimée (texto)

domingo, 18 de setembro de 2011

“Eu amo você demais”



Caminhamos rumo a sua casa, um dos celulares toca, conversa durante todo o percurso e, com a outra mão, lê mensagens que também chega do outro celular. No itinerário até sua residência, ele conversa com todos que encontra, um sobrinho, o guarda do posto de saúde, os estudantes que vão à escola. Assim é Cleuton César Ferreira, mais conhecido como Kekê, 33 anos, dos quais 26 anos no meio artístico.
Vascaíno de coração e apaixonado por suas obras, Kekê é hiperativo, levanta as mãos e a cabeça quando fala, balança muito as pernas e sempre dispara a célebre frase “eu amo você demais”, para aqueles indivíduos dispostos a ouvi-lo ou que tenha algum grau de intimidade.
Pai de três filhos, um adolescente de 12 anos, uma menina de seis e uma criança de dois, a quem ele chama de dinossauro. Keké avisa que é uma forma carinhosa de chamar o filho, por causa da cabeça achatada. Coisas de artista. A excentricidade é comprovada na chegada a sua casa, quando alegremente seu filho vem recebê-lo no portão.
Natural de Curaçá, Kekê foi influenciado no meio artístico pelos amigos Pinzoh, Dodó, Nego, Clóvis, Gatinha. Todos eles personalidades curaçaenses nas palavras do próprio.
Kekê pinta, e pinta muito. Em tela, em madeira, em CD´s, em telhas. Uma de suas características é fazer alguma obra, geralmente uma tela de artistas consagrados ou regionais, e levá-la aos shows. “É um tiro no escuro, levo as telas e lá vejo o que vai acontecer, um episódio marcante foi o show do Capital Inicial, onde Dinho Ouro Preto me convidou para subir ao palco”, pontua, em êxtase.
A data ele se lembra bem, era quatro de fevereiro de 2011. Segundo Kekê, este foi o maior reconhecimento que um artista de renome nacional já lhe concedeu. Recentemente, foi ao show de Maria Gadú, também ocorrido em Petrolina, lá embolsou R$ 950,00 por quatro telas vendidas a cantora. Foi o maior valor pago ao artista pelas suas obras.
Porém, o que lhe trouxe maior satisfação foi a criação, em meados de 1994/1995, do Movimento Bichos Escrotos, junto com Maurizio Bin, também curaçaense. O movimento propunha envolver cultura, arte, música, dança, e que posteriormente tornou-se uma Banda de Rock, em plena atividade atualmente.
Sobre seus processos de criação, Kekê é pontual. “Minha arte é meio grafite, meio pincel, meio arte estêncil, meu estilo é próprio”. Calçado em um tênis estilo allstar, calça jeans, e camisa preta personalizada por ele mesmo, Keké tem todo um estilo próprio, é simples, mas nada modesto. Como artista, ele quer ser reconhecido e é. Já participou dos programas Mosaico Baiano e Bahia Esporte, da TV Bahia, do Globo Esporte nacional e nas Tvs e jornais locais.
“Eu gosto de levar a tela para o show e deixar que a galera toque, sinta, pegue nela, a energia da tela aumenta”, diz um Kekê entusiasmado, alegre e vibrante.
Um vizinho chega, começam a conversar sobre problemas no encanamento da casa de Kekê e eu me despeço de Clécia Maria, sua esposa, dos dois filhos do casal, e dele, o artista que pinta telas e contagia todo aquele que se aproxima e conversa com ele.
Juliano Ferreira (texto)
Graduando do 4° Período de Jornalismo em Multimeios da UNEB
Catharine Matos (foto)
Graduanda do 6º Período de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Nas órbitas de Ângelo Roncalli


“Hiato. Poeta inexato. Náufrago. Bárbaro. Sempre mudando”. É com essa linguagem polissêmica, conotativa, que Ângelo Roncalli se define. Mas não poderia ser diferente. Que melhor forma um poeta poderia encontrar para falar de si, senão fazendo uso da própria poesia? Para esse concretista, a autodefinição não pode fugir do cosmo, ou melhor, das órbitas. Como diz Luiz Hélio Alves, Roncalli busca o “totalismo” para descrever a sua poesia, e eu, com a permissão da palavra, digo que ele busca o “totalismo” para descrever a si próprio.
Juazeirense desde quando nasceu, no primeiro dia de abril de 1976, ele não é um mentiroso. É, antes, um fingidor, já que “finge tão completamente que chega a sentir que é dor, a dor que deveras sente”, como já dizia o poeta português, Fernando Pessoa. Ângelo podia ser qualquer Ângelo, mas não é. Ele é Roncalli, assim como o Papa João XXIII, que se chamava Ângelo Giuseppe Roncalli. Mas a sua avó, que foi quem lhe deu esse nome, decidiu abrir mão do Giuseppe. Só Ângelo Roncalli estava bom. Segundo o poeta, ela fez isso porque era muito católica. “Batizou-me com o nome de Papa e mudou minha vida”, diz. E deve ter mudado mesmo, afinal não é para qualquer um carregar o nome de um Papa.   
A relação de Roncalli com a poesia começou em casa, ao som de João Gilberto, dos Novos Baianos e de Caetano Veloso. Sem esquecer de Legião Urbana e dos Titãs. “A música foi minha porta de entrada para a poesia”, relembra o artista. As suas influências foram a poesia concreta e a poesia beatnik americana, poetas como Arthur Rimbaud entre outros.
Ao ser questionado sobre a crença na inspiração ou no trabalho árduo da palavra, como defendia João Cabral de Melo Neto, Roncalli é incisivo: “não há limites para a poesia. Escrever pode ser um processo conclusivo ou obsessivo. Depende de quem escreve”. A sua produção não fica engavetada, nasce de uma vez, “no viés”, como ele mesmo diz. Para Roncalli, é poesia tudo que ela escolha poetar. E a dele opta por poetar a convivência, o despudor e a metapoesia. Talvez por essa razão, Josemar Martins (Pinzoh), que também é poeta, classifique a literatura de Roncalli como “universal”. Não é à toa que o seu primeiro e único livro publicado - até o momento – chame-se “Orbitais – um ato de novas conquistas”. 
Seja por escolha, destino ou coincidência, Ângelo Roncalli, que também é Bacharel em Ciências Contábeis, dirige a empresa Orbitais Negócios Integrados, nome emprestado do livro, justamente pela cosmogonia, pelo totalismo que ele representa. Embora sendo um profissional liberal, a poesia ocupa um lugar singular em sua vida. “Escrevo porque é minha forma de expressar minhas observações sobre nosso cotidiano e sobre o próprio ato de escrever. Escrevo porque sou um existencialista romântico, que ainda acredita num mundo civilizado”, explica Roncalli, afirmando que a arte poética é o próprio “brinde da existência”.
Na criação do poeta não há segredos. “É sempre um processo perceptivo. Um mote poético. Captado através do cotidiano. Depois paro e escrevo o poema”, conta. Em meio a tantas tecnologias como a poesia é produzida? Ainda com a caneta e o papel ou com os meios eletrônicos? Roncalli não poderia dar melhor resposta: “Caneta e Papel. Computador e Word. Hidrocor e papel. Além de paredes, guardanapos, outdoor, camisa. Meu sonho é reconstruir o cais com poemas referenciais”. Quem duvida disso? 
Edilane Ferreira (texto).
Foto - Divulgação
Graduanda do 6° Período de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Para sempre bailarina



Era uma manhã ensolarada em Petrolina (PE). Com papel, caneta, gravador e câmara fotogáfica em mãos,  chegamos ao nosso destino às 11h. Sentamos e esperamos por alguns minutos. Vestida com as indumentárias essenciais para a sua profissão, meias, sapatilhas nos pés e um colan, a mulher, de estatura baixa e sorriso aberto, nos recebeu com muita simpatia e começamos um descontraído bate-papo.

Vildete Matins Cezar Cabral nasceu na cidade de Cruz Alta (RS) e se apaixonou pela arte desde a sua infância. Cresceu rodeada por entre as telas de seu pai e a música que embalava os passos de dança da mãe e da irmã, Valdete. Conterrânea do escritor Érico Veríssimo, a menina curiosa logo despertou o interesse pela dança aos oito anos de idade quando passou a assistir às aulas da irmã, e aos 13 já dava aulas de ballet sem pretensão de se tornar profissional. Aos 15 anos, realizou seu primeiro solo e coordenou o primeiro festival de dança.

O tempo passou e a menina decidiu levar a dança como profissão. A princípio, o sonho de ser bailarina começou ao cursar Belas Artes na Faculdade Federal de Santa Maria, aos 16 anos, em 1973. No entanto, precisou se transferir para a Universidade de Brasília quando seu pai, militar, foi transferido com toda a família para Petrolina, e na região não existia o curso. Morando na capital do país, a jovem esbanjava talento e conseguia elogios de seus mestres.

A partir daí nunca mais parou. Começou a dar aula de ballet para filhos de diplomatas, participou de cursos no Rio de Janeiro e concentrou os seus estudos no que mais gostava: o ballet clássico. Sonhava ganhar uma bolsa para estudar no exterior. Porém, por motivos profissionais, optou por voltar à sua cidade natal para concluir o curso que, até então, não havia terminado. Foi aí que, no último período de faculdade, por intervenção divina ou um incidente da vida, no final do ano de 1978, um telefonema mudou a direção de seus planos. Sua irmã fora assassinada com cinco tiros pelo marido, o que a fez arrumar as malas e partir para Petrolina.

Com o intuito de ajudar a mãe que estava inconformada e depressiva com a morte da filha, a futura bailarina chegou à região do Vale do São Francisco com a intenção de pôr em prática um sonho da irmã, abrir uma escola de ballet e compartilhar o talento possuído por ambas. Anos depois, por motivos pessoais, a família decidiu voltar para o Rio Grande do Sul, porém Vildete decidiu ficar. E assim aconteceu.

Em 1980, obedecendo à condição de seu pai - fazer um curso superior - para ficar em terra sãofranciscana, Vildete se formou em administração pela Faculdade de Ciências Aplicadas de Petrolina (FACAPE), já que não havia curso de  Artes. Mas o sonho de investir na arte do ballet continuava. Assim, dois anos depois, nomeou a escola fundada pela irmã de Escola de Ballet Valdete de Cezar, uma forma de homenagear a irmã.

Entre uma onomatopeia e outra para contar todos esses anos de experiência, aprendizado e viagens por diversos países e estados no Brasil, Vildete possui uma bagagem extensa de prática e conhecimento, e se orgulha de já ter sido a única representante nordestina de sua modalidade no exterior. Além de trabalhar com crianças carentes e autistas, “o que proporcionou uma vida melhor para essas pessoas”, conta.

Hoje, aos 54 anos, casada e com uma filha, uma das pioneiras da dança no Vale do São Francisco se considera uma pessoa feliz e realizada profissionalmente. Entretanto, gostaria que a sua escolha por ensinar fosse mais valorizada e explorada tanto na região quanto no país. “Apesar de amar o que faço, às vezes fico desestimulada com a nossa realidade e tenho que trabalhar com as frustrações. O brasileiro ainda não consegue entender os benefícios que o ballet traz e acaba deixando-o de lado. Mas, acredito que isso ainda possa mudar”, desabafa.

Acreditando na educação através da arte, fez pós-graduação em psicopedagogia como forma de ajudar suas alunas. "A dança mexe com a sensibilidade das pessoas e muitos a tem como refúgio", comenta. Apesar de não ter conquistado o sonho de se graduar como bailarina pela universidade, quando indagada sobre o que seria de sua vida se não existisse a dança, Vildete é sucinta. “Se não tivesse a dança, eu não teria conseguido chegar até aqui. A minha vida seria simplesmente vazia. Eu não seria nada”.

Catharine Matos (texto e foto)
Graduanda do 6º período de Jornalismo em Multimeios da UNEB

sábado, 17 de setembro de 2011

Os caminhos de Juazeiro



Habitualmente no percurso entre o Country e o terminal de ônibus de Juazeiro não me surpreendo mais com o que vejo, me deparo com a mesma Juazeiro de todos os dias. Entretanto, hoje, perante os seus 133 anos, entorpeço o meu olhar para poder enxergá-la. Talvez, desta forma, entenderei porque nossas retinas deixaram de olhá-la de modo apaixonado, porque ela está assim, pálida e desinteressante.

Adentrando o ônibus, questiono-me: como poderei vê-la? Logo, concluo que preciso primeiramente desconhecê-la, para posteriormente, cara a cara, lhe encontrar e identificar a origem da sua falta de nitidez. Ao passar pela catraca do coletivo, deixo todas as minhas impressões para trás. No fundo do ônibus encontro um assento adjunto à janela. A partir daquela fresta, começo a investigar.

O passo acelerado das pessoas, ambulantes à beira da calçada, a velha pedinte sentada no banco. São as primeiras imagens que, através da janela, identifico. Com o ronco do motor desvio meu olhar, o veiculo está lotado, algumas pessoas conversam entre si, outras consultam fixamente seus relógios, duas lêem e, estranhamente, encontro-me só, olhando os caminhos de juazeiro.

Após o ônibus partir, o cenário se modifica.  Surge um semáforo, um posto de gasolina, pessoas e carros, mas, repentinamente, fico incomodada, sinto um odor, também ouço muito barulho. Curiosa, encosto a cabeça na janela, aperto os olhos para ver a algazarra,  ainda distante, enxergo apenas pessoas. Aproximando do local mato a charada, são ambulantes, ou, como está escrito na placa enferrujada afixada na parede, trata-se do Mercado Joca de Souza Oliveira. O ambiente é tumultuado, uma compilação do som alto dos carrinhos de venda de CDs e DVDs pirata aliada ao berreiro dos vendedores e o aroma indesejável de animais e frutas podres.

Volto-me para os passageiros a bordo, reconheço nos seus olhares certa repugnância ao Mercado, suponho que seja pelo seu aroma fétido ou talvez pela desordem do local. Confesso que, pela primeira vez naquela viagem, partilhei do mesmo sentimento dos passageiros, não havia naquilo nada encantador e nada que pudéssemos nos orgulhar. 

Minutos depois, vejo na poltrona da frente duas jovens que conversam sobre a beleza do pôr do sol na Lagoa de Calu e como o lugar é agradável. Fiquei atenta a vista, aquela Juazeiro traria à tona mais uma das suas faces. Após o contorno, avisto um céu azul, algumas árvores e uma estrutura rústica de madeira que trazia na sua fachada o nome Alpendre. Adiante, lá estavam as águas da lagoa com patinhos a se refrescar, uma quadra de esportes onde meninos corriam alegremente atrás de uma bola e uma via na qual pessoas caminham, correm e conversam tranquilamente. Surpreendo-me com aquele cenário, um ambiente de paz, que acende em mim a vontade de seguir explorando Juazeiro.

Saindo da lagoa, o ônibus segue em direção a uma avenida larga. Aguço meu olhar. Uma senhora de vestido rosa sentada atrás de mim fica admirada com a minha curiosidade e pergunta: Você é de onde? Surgiu, no meu semblante, um leve sorriso:  sou dessa cidade, mas há muito não a olhava como hoje. Para a senhora, a resposta não causa espanto, ela então relembra de como tudo era no passado: "Tenho 75 anos, não gosto mais daqui. Quando eu era jovem isto era o Cais, um movimentado centro comercial no qual embarcações atracavam e desembarcavam com mantimentos e os mais diversos produtos da região. Nesta época, as pessoas se olhavam, se reconheciam, tinham apreço ou então respeito. Hoje, tudo está tão diferente. Aqui agora é a orla, que para mim não passa de um ponto de farras e prostituição'". Indignada, a senhora continua: acabaram com tudo que havia e construíram a praça São Tiago Maior e a estátua do Nego d água pensando que assim trariam a beleza de outrora. Mas isso não aconteceu, nem vai. 

Escutei toda a fala da senhorinha, e realmente tive que concordar com ela, os juazeirenses tinham uma paisagem linda aos seus pés, mas, apáticos, deixaram o cais se tornar isso, uma orla, repleta de bares e  pessoas alegres que dançam, nas calçadas, baladas. Outras se divertem reencontrando amigos.

Quase impossível não me comover com o saudosismo desses cidadãos juazeirenses que choram à antiga Juazeiro, mas prefiro pensar também que a modernidade não trouxe apenas frustrações. A cidade provou o doce sabor de ser considerado um dos pólos da fruticultura irrigada e desde 2002, pólo universitário, com a chegada de mais uma universidade. Prefiro pensar dessa forma. Contudo, não consigo deixar de ecoar no meu íntimo o sentimento de perda que vi nos olhos da senhora.

Passada a decepcionante experiência após as reflexões da senhora me fechei em mim mesma. O percurso estava no fim, o ônibus estava subindo a rampa em direção à Petrolina. Na ponte me senti novamente em paz, em cima daquela imensidão de águas. Chegando a cidade vizinha, o ônibus para 15 minutos no semáforo, um rapaz vira para o outro e diz: “aqui tudo é diferente, as pessoas respeitam os sinais de trânsito, preservam a cidade”. 

A partir dessa fala e todas as experiências vividas pude então compreender: Juazeiro não era igual a Petrolina, não era como já foi antes. As pessoas não a enxergavam por um motivo, porque ela não era, sim, a mais admirável Juazeiro.

Juliane Peixinho (texto)
Graduanda do 8º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Emerson Rocha (foto)
Graduando do 8º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB