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sábado, 17 de setembro de 2011

Os caminhos de Juazeiro



Habitualmente no percurso entre o Country e o terminal de ônibus de Juazeiro não me surpreendo mais com o que vejo, me deparo com a mesma Juazeiro de todos os dias. Entretanto, hoje, perante os seus 133 anos, entorpeço o meu olhar para poder enxergá-la. Talvez, desta forma, entenderei porque nossas retinas deixaram de olhá-la de modo apaixonado, porque ela está assim, pálida e desinteressante.

Adentrando o ônibus, questiono-me: como poderei vê-la? Logo, concluo que preciso primeiramente desconhecê-la, para posteriormente, cara a cara, lhe encontrar e identificar a origem da sua falta de nitidez. Ao passar pela catraca do coletivo, deixo todas as minhas impressões para trás. No fundo do ônibus encontro um assento adjunto à janela. A partir daquela fresta, começo a investigar.

O passo acelerado das pessoas, ambulantes à beira da calçada, a velha pedinte sentada no banco. São as primeiras imagens que, através da janela, identifico. Com o ronco do motor desvio meu olhar, o veiculo está lotado, algumas pessoas conversam entre si, outras consultam fixamente seus relógios, duas lêem e, estranhamente, encontro-me só, olhando os caminhos de juazeiro.

Após o ônibus partir, o cenário se modifica.  Surge um semáforo, um posto de gasolina, pessoas e carros, mas, repentinamente, fico incomodada, sinto um odor, também ouço muito barulho. Curiosa, encosto a cabeça na janela, aperto os olhos para ver a algazarra,  ainda distante, enxergo apenas pessoas. Aproximando do local mato a charada, são ambulantes, ou, como está escrito na placa enferrujada afixada na parede, trata-se do Mercado Joca de Souza Oliveira. O ambiente é tumultuado, uma compilação do som alto dos carrinhos de venda de CDs e DVDs pirata aliada ao berreiro dos vendedores e o aroma indesejável de animais e frutas podres.

Volto-me para os passageiros a bordo, reconheço nos seus olhares certa repugnância ao Mercado, suponho que seja pelo seu aroma fétido ou talvez pela desordem do local. Confesso que, pela primeira vez naquela viagem, partilhei do mesmo sentimento dos passageiros, não havia naquilo nada encantador e nada que pudéssemos nos orgulhar. 

Minutos depois, vejo na poltrona da frente duas jovens que conversam sobre a beleza do pôr do sol na Lagoa de Calu e como o lugar é agradável. Fiquei atenta a vista, aquela Juazeiro traria à tona mais uma das suas faces. Após o contorno, avisto um céu azul, algumas árvores e uma estrutura rústica de madeira que trazia na sua fachada o nome Alpendre. Adiante, lá estavam as águas da lagoa com patinhos a se refrescar, uma quadra de esportes onde meninos corriam alegremente atrás de uma bola e uma via na qual pessoas caminham, correm e conversam tranquilamente. Surpreendo-me com aquele cenário, um ambiente de paz, que acende em mim a vontade de seguir explorando Juazeiro.

Saindo da lagoa, o ônibus segue em direção a uma avenida larga. Aguço meu olhar. Uma senhora de vestido rosa sentada atrás de mim fica admirada com a minha curiosidade e pergunta: Você é de onde? Surgiu, no meu semblante, um leve sorriso:  sou dessa cidade, mas há muito não a olhava como hoje. Para a senhora, a resposta não causa espanto, ela então relembra de como tudo era no passado: "Tenho 75 anos, não gosto mais daqui. Quando eu era jovem isto era o Cais, um movimentado centro comercial no qual embarcações atracavam e desembarcavam com mantimentos e os mais diversos produtos da região. Nesta época, as pessoas se olhavam, se reconheciam, tinham apreço ou então respeito. Hoje, tudo está tão diferente. Aqui agora é a orla, que para mim não passa de um ponto de farras e prostituição'". Indignada, a senhora continua: acabaram com tudo que havia e construíram a praça São Tiago Maior e a estátua do Nego d água pensando que assim trariam a beleza de outrora. Mas isso não aconteceu, nem vai. 

Escutei toda a fala da senhorinha, e realmente tive que concordar com ela, os juazeirenses tinham uma paisagem linda aos seus pés, mas, apáticos, deixaram o cais se tornar isso, uma orla, repleta de bares e  pessoas alegres que dançam, nas calçadas, baladas. Outras se divertem reencontrando amigos.

Quase impossível não me comover com o saudosismo desses cidadãos juazeirenses que choram à antiga Juazeiro, mas prefiro pensar também que a modernidade não trouxe apenas frustrações. A cidade provou o doce sabor de ser considerado um dos pólos da fruticultura irrigada e desde 2002, pólo universitário, com a chegada de mais uma universidade. Prefiro pensar dessa forma. Contudo, não consigo deixar de ecoar no meu íntimo o sentimento de perda que vi nos olhos da senhora.

Passada a decepcionante experiência após as reflexões da senhora me fechei em mim mesma. O percurso estava no fim, o ônibus estava subindo a rampa em direção à Petrolina. Na ponte me senti novamente em paz, em cima daquela imensidão de águas. Chegando a cidade vizinha, o ônibus para 15 minutos no semáforo, um rapaz vira para o outro e diz: “aqui tudo é diferente, as pessoas respeitam os sinais de trânsito, preservam a cidade”. 

A partir dessa fala e todas as experiências vividas pude então compreender: Juazeiro não era igual a Petrolina, não era como já foi antes. As pessoas não a enxergavam por um motivo, porque ela não era, sim, a mais admirável Juazeiro.

Juliane Peixinho (texto)
Graduanda do 8º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Emerson Rocha (foto)
Graduando do 8º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

De Juazeiro a Petrolina, a Juazeiro...



Passam cerca de 35 mil pessoas diariamente na ponte presidente Dutra, que interliga as cidades de Petrolina e Juazeiro. Apesar de ter nascido em Juazeiro e ser de família baiana não tenho nenhuma familiaridade com a cidade. Na minha rotina diária de sair de Petrolina, atravessar a ponte com uma belíssima imagem do Rio São Francisco, passar em frente à lagoa do Calú, por alguns quebra-molas e chegar à faculdade, é o único conhecimento que eu tenho da minha cidade natal. Mas essa desatenção não é só minha, uma grande parte dos petrolinenses se encaminha a Juazeiro todos os dias para ir a alguma clinica, algum mercado, ou loja. A cidade - em si - lhes passa despercebida.

O hábito de ir sempre à cidade - exceto por obrigação ou necessidade - não acontece. É só experimentar perguntar “O que você acha de Juazeiro?” a alguém de Petrolina, que a resposta quase sempre é imediata e negativa: “Péssima”, “Desestruturada”, “Um caos”, ”De bom só a visão de Petrolina”. A diferença estrutural é o primeiro impacto entre as cidades. Ao chegar a Juazeiro temos a impressão de que estamos realmente no interior, ruas estreitas, prédios baixos, muitas pessoas andando na avenida, praças, bicicletas, casas antigas, motos, carrinhos de bebês, tudo misturado. Mas, porque essa negação da cidade co-irmã? Só pelas ruas estreitas e fachadas envelhecidas? O ar de Juazeiro seria diferente?

Um dia me peguei respirando profundamente para ver se a diferença estava no “ar”, e foi quando vi um outdoor escrito: “a maior loja do Brasil da Honda está em Petrolina”. Por um minuto, esqueci onde estava, e até os anúncios favoreciam Petrolina. O ar era baiano, mas a impressão era de que o rio separou uma única cidade. Nossa necessidade de defender nosso habitat é o responsável por essas visões deturpadas de algo desconhecido. Para entender Juazeiro é necessário ver sua geografia, entender a diferença na construção das duas cidades, e compreender que os becos e ruas estreitas contam uma história de mais de 130 anos, refletindo a diferença nos processos econômicos e históricos das duas. Devemos lembrar que estamos a 10 minutos de Juazeiro e não há 10 anos, passear na cidade e conhecer seus espaços é possível. Prestar atenção ao sorriso e ao jeito “tagarela” dos juazeirenses fará toda a diferença.

Lícia Loltran
Graduanda do 2º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB
Foto: Filipe Durando

E as lavadeiras do Angari?


Tristes “Angarys”, tristes “Angarys”, como já dizia o poeta Euvaldo Macedo, não te encontramos mais por aqui. O rio São Francisco não é mais banhado pelas águas “ensaboadas” das roupas das lavadeiras. Cadê as “mulheres sofridas de peles curtidas, de sonhos clementes” das canções de Edésio Santos? Aah, lavadeiras do Angari... As tuas mágoas não são mais lavadas por essas águas. Onde elas vertem agora? Onde está o vaivém dos teus braços, o balanço das roupas que te sustentam?

Enquanto uma mulher carrega bacias cobertas de roupas na cabeça, um poeta a contempla. Pura poesia! As cordas do violão de Edésio não seguem mais o compasso das tuas mãos entregues a panos e águas. Ele se foi... E vocês, onde estão, mulatas cachopas? Cansaram de bater roupas? Ou seguiram o poeta? Não vejo mais o brilho e a brancura das tuas almas ingênuas, puras e simples como Edésio dizia. 

Recorro ao Chronos para tentar encontrar as mulheres que outrora estiveram presentes nas poesias e canções juazeirenses. Aquelas que refletiam a alma da gente que pisa os solos ribeirinhos. É preciso recorrer ao Senhor do Tempo para encontrá-las, pois entre as casas coloridas, conglomeradas de hoje, vejo apenas canoas “beirandeiras” solitárias. Onde estão vocês, mulheres de pescadores, que só encontro agora nas canções de Edésio? O Angari não é mais o mesmo. Falta o gingado dos teus corpos com trouxas na cabeça e sonhos nas mãos. Nos varais não vemos mais o “amor por tantos sonhos”. Não sabemos onde eles foram pendurados. O rio segue o seu percurso, a ponte está no mesmo lugar, os pescadores pescam à noite, talvez agora sem medo do Nego D`água. Só as lavadeiras não estão.

Hoje, vejo meninos correndo, homens conversando, pessoas passando, mulheres indo e vindo, não mais com roupas nas cabeças. Agora elas estão em peixarias, nos balcões de bares e mercadinhos. Não são as mesmas das canções de Edésio. Elas mudaram, as músicas mudaram, a cidade mudou. O Angari dos poetas não existe mais. Os vapores se foram, ninguém os espera. Alguém ainda faz versos ao arrebol, ou isso ficou entre Edésio e João Gilberto, junto ao cais? Se ainda existem esses raros, meus olhos saudosistas não o veem. Edésio olhou Juazeiro com os olhos de poeta que o comprazia. Ele viu a beleza, a poesia, a ternura, a ponte imensa sobre o rio, as velas brancas canoeiros e barqueiros e, junto a tudo isso, as lavadeiras, as lavadeiras do Angari.   

Onde encontrá-las? Vou ao Angari, ele não é mais o mesmo. Não as encontro, não as vejo conforme a lírica de Edésio. E, imersa em recordações poéticas, desconheço o lugar em que piso. Sem eira nem beira, vou beirando às margens do rio. E de muito longe me vem uma música que diz, justamente, o que eu gostaria de ter dito. Não sei quem a compôs, mas, mesmo assim, não consigo deixar de lembrá-la. Vou seguindo e cantando a canção, que emerge do mais íntimo das minhas dores: As lavadeiras do Angari / Já não se encontram mais por aqui / As lavadeiras do Angari / Já não se encontram mais por aqui / As lavadeiras do Angari / Já não se encontram mais por aqui / Amigo tudo isso acabou / E o tom já não é o mesmo ao arrebol / Ficou somente a história / Daquele tempo bom...

Veja: Canções que retratam o Angari

Edilane Ferreira da Silva
Graduanda do 6º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB