domingo, 18 de setembro de 2011

Para sempre bailarina



Era uma manhã ensolarada em Petrolina (PE). Com papel, caneta, gravador e câmara fotogáfica em mãos,  chegamos ao nosso destino às 11h. Sentamos e esperamos por alguns minutos. Vestida com as indumentárias essenciais para a sua profissão, meias, sapatilhas nos pés e um colan, a mulher, de estatura baixa e sorriso aberto, nos recebeu com muita simpatia e começamos um descontraído bate-papo.

Vildete Matins Cezar Cabral nasceu na cidade de Cruz Alta (RS) e se apaixonou pela arte desde a sua infância. Cresceu rodeada por entre as telas de seu pai e a música que embalava os passos de dança da mãe e da irmã, Valdete. Conterrânea do escritor Érico Veríssimo, a menina curiosa logo despertou o interesse pela dança aos oito anos de idade quando passou a assistir às aulas da irmã, e aos 13 já dava aulas de ballet sem pretensão de se tornar profissional. Aos 15 anos, realizou seu primeiro solo e coordenou o primeiro festival de dança.

O tempo passou e a menina decidiu levar a dança como profissão. A princípio, o sonho de ser bailarina começou ao cursar Belas Artes na Faculdade Federal de Santa Maria, aos 16 anos, em 1973. No entanto, precisou se transferir para a Universidade de Brasília quando seu pai, militar, foi transferido com toda a família para Petrolina, e na região não existia o curso. Morando na capital do país, a jovem esbanjava talento e conseguia elogios de seus mestres.

A partir daí nunca mais parou. Começou a dar aula de ballet para filhos de diplomatas, participou de cursos no Rio de Janeiro e concentrou os seus estudos no que mais gostava: o ballet clássico. Sonhava ganhar uma bolsa para estudar no exterior. Porém, por motivos profissionais, optou por voltar à sua cidade natal para concluir o curso que, até então, não havia terminado. Foi aí que, no último período de faculdade, por intervenção divina ou um incidente da vida, no final do ano de 1978, um telefonema mudou a direção de seus planos. Sua irmã fora assassinada com cinco tiros pelo marido, o que a fez arrumar as malas e partir para Petrolina.

Com o intuito de ajudar a mãe que estava inconformada e depressiva com a morte da filha, a futura bailarina chegou à região do Vale do São Francisco com a intenção de pôr em prática um sonho da irmã, abrir uma escola de ballet e compartilhar o talento possuído por ambas. Anos depois, por motivos pessoais, a família decidiu voltar para o Rio Grande do Sul, porém Vildete decidiu ficar. E assim aconteceu.

Em 1980, obedecendo à condição de seu pai - fazer um curso superior - para ficar em terra sãofranciscana, Vildete se formou em administração pela Faculdade de Ciências Aplicadas de Petrolina (FACAPE), já que não havia curso de  Artes. Mas o sonho de investir na arte do ballet continuava. Assim, dois anos depois, nomeou a escola fundada pela irmã de Escola de Ballet Valdete de Cezar, uma forma de homenagear a irmã.

Entre uma onomatopeia e outra para contar todos esses anos de experiência, aprendizado e viagens por diversos países e estados no Brasil, Vildete possui uma bagagem extensa de prática e conhecimento, e se orgulha de já ter sido a única representante nordestina de sua modalidade no exterior. Além de trabalhar com crianças carentes e autistas, “o que proporcionou uma vida melhor para essas pessoas”, conta.

Hoje, aos 54 anos, casada e com uma filha, uma das pioneiras da dança no Vale do São Francisco se considera uma pessoa feliz e realizada profissionalmente. Entretanto, gostaria que a sua escolha por ensinar fosse mais valorizada e explorada tanto na região quanto no país. “Apesar de amar o que faço, às vezes fico desestimulada com a nossa realidade e tenho que trabalhar com as frustrações. O brasileiro ainda não consegue entender os benefícios que o ballet traz e acaba deixando-o de lado. Mas, acredito que isso ainda possa mudar”, desabafa.

Acreditando na educação através da arte, fez pós-graduação em psicopedagogia como forma de ajudar suas alunas. "A dança mexe com a sensibilidade das pessoas e muitos a tem como refúgio", comenta. Apesar de não ter conquistado o sonho de se graduar como bailarina pela universidade, quando indagada sobre o que seria de sua vida se não existisse a dança, Vildete é sucinta. “Se não tivesse a dança, eu não teria conseguido chegar até aqui. A minha vida seria simplesmente vazia. Eu não seria nada”.

Catharine Matos (texto e foto)
Graduanda do 6º período de Jornalismo em Multimeios da UNEB

sábado, 17 de setembro de 2011

Os caminhos de Juazeiro



Habitualmente no percurso entre o Country e o terminal de ônibus de Juazeiro não me surpreendo mais com o que vejo, me deparo com a mesma Juazeiro de todos os dias. Entretanto, hoje, perante os seus 133 anos, entorpeço o meu olhar para poder enxergá-la. Talvez, desta forma, entenderei porque nossas retinas deixaram de olhá-la de modo apaixonado, porque ela está assim, pálida e desinteressante.

Adentrando o ônibus, questiono-me: como poderei vê-la? Logo, concluo que preciso primeiramente desconhecê-la, para posteriormente, cara a cara, lhe encontrar e identificar a origem da sua falta de nitidez. Ao passar pela catraca do coletivo, deixo todas as minhas impressões para trás. No fundo do ônibus encontro um assento adjunto à janela. A partir daquela fresta, começo a investigar.

O passo acelerado das pessoas, ambulantes à beira da calçada, a velha pedinte sentada no banco. São as primeiras imagens que, através da janela, identifico. Com o ronco do motor desvio meu olhar, o veiculo está lotado, algumas pessoas conversam entre si, outras consultam fixamente seus relógios, duas lêem e, estranhamente, encontro-me só, olhando os caminhos de juazeiro.

Após o ônibus partir, o cenário se modifica.  Surge um semáforo, um posto de gasolina, pessoas e carros, mas, repentinamente, fico incomodada, sinto um odor, também ouço muito barulho. Curiosa, encosto a cabeça na janela, aperto os olhos para ver a algazarra,  ainda distante, enxergo apenas pessoas. Aproximando do local mato a charada, são ambulantes, ou, como está escrito na placa enferrujada afixada na parede, trata-se do Mercado Joca de Souza Oliveira. O ambiente é tumultuado, uma compilação do som alto dos carrinhos de venda de CDs e DVDs pirata aliada ao berreiro dos vendedores e o aroma indesejável de animais e frutas podres.

Volto-me para os passageiros a bordo, reconheço nos seus olhares certa repugnância ao Mercado, suponho que seja pelo seu aroma fétido ou talvez pela desordem do local. Confesso que, pela primeira vez naquela viagem, partilhei do mesmo sentimento dos passageiros, não havia naquilo nada encantador e nada que pudéssemos nos orgulhar. 

Minutos depois, vejo na poltrona da frente duas jovens que conversam sobre a beleza do pôr do sol na Lagoa de Calu e como o lugar é agradável. Fiquei atenta a vista, aquela Juazeiro traria à tona mais uma das suas faces. Após o contorno, avisto um céu azul, algumas árvores e uma estrutura rústica de madeira que trazia na sua fachada o nome Alpendre. Adiante, lá estavam as águas da lagoa com patinhos a se refrescar, uma quadra de esportes onde meninos corriam alegremente atrás de uma bola e uma via na qual pessoas caminham, correm e conversam tranquilamente. Surpreendo-me com aquele cenário, um ambiente de paz, que acende em mim a vontade de seguir explorando Juazeiro.

Saindo da lagoa, o ônibus segue em direção a uma avenida larga. Aguço meu olhar. Uma senhora de vestido rosa sentada atrás de mim fica admirada com a minha curiosidade e pergunta: Você é de onde? Surgiu, no meu semblante, um leve sorriso:  sou dessa cidade, mas há muito não a olhava como hoje. Para a senhora, a resposta não causa espanto, ela então relembra de como tudo era no passado: "Tenho 75 anos, não gosto mais daqui. Quando eu era jovem isto era o Cais, um movimentado centro comercial no qual embarcações atracavam e desembarcavam com mantimentos e os mais diversos produtos da região. Nesta época, as pessoas se olhavam, se reconheciam, tinham apreço ou então respeito. Hoje, tudo está tão diferente. Aqui agora é a orla, que para mim não passa de um ponto de farras e prostituição'". Indignada, a senhora continua: acabaram com tudo que havia e construíram a praça São Tiago Maior e a estátua do Nego d água pensando que assim trariam a beleza de outrora. Mas isso não aconteceu, nem vai. 

Escutei toda a fala da senhorinha, e realmente tive que concordar com ela, os juazeirenses tinham uma paisagem linda aos seus pés, mas, apáticos, deixaram o cais se tornar isso, uma orla, repleta de bares e  pessoas alegres que dançam, nas calçadas, baladas. Outras se divertem reencontrando amigos.

Quase impossível não me comover com o saudosismo desses cidadãos juazeirenses que choram à antiga Juazeiro, mas prefiro pensar também que a modernidade não trouxe apenas frustrações. A cidade provou o doce sabor de ser considerado um dos pólos da fruticultura irrigada e desde 2002, pólo universitário, com a chegada de mais uma universidade. Prefiro pensar dessa forma. Contudo, não consigo deixar de ecoar no meu íntimo o sentimento de perda que vi nos olhos da senhora.

Passada a decepcionante experiência após as reflexões da senhora me fechei em mim mesma. O percurso estava no fim, o ônibus estava subindo a rampa em direção à Petrolina. Na ponte me senti novamente em paz, em cima daquela imensidão de águas. Chegando a cidade vizinha, o ônibus para 15 minutos no semáforo, um rapaz vira para o outro e diz: “aqui tudo é diferente, as pessoas respeitam os sinais de trânsito, preservam a cidade”. 

A partir dessa fala e todas as experiências vividas pude então compreender: Juazeiro não era igual a Petrolina, não era como já foi antes. As pessoas não a enxergavam por um motivo, porque ela não era, sim, a mais admirável Juazeiro.

Juliane Peixinho (texto)
Graduanda do 8º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Emerson Rocha (foto)
Graduando do 8º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Crenças, verduras e trabalho no Mercado Joca de Souza Oliveira




“Olha a banana, aê! É só um R$ 1,50. Chega aqui, freguês!Na barraca tem pimentão, cebolinha, moi de verdura. Leve vá, só por R$ 1,00”. Todos os dias, a mesma gritaria. Todos os dias, antes  mesmo do sol nascer, dona Maria se joga na porta do mercado Joca de Souza de Oliveira. E se joga mesmo!É só olhar para o chão sujo da rua, para a cor dos seus pés e unhas. Ela quase se confunde com o meio fio.

Quem olha para baixo, procurando aquela voz rimada vê uma senhora de saia, lenço na cabeça, sentada ao chão e as mãos tão acostumadas a descascar o feijão que nem olha para bacia. Ela se comunica de todas as formas. Ao tempo que ela chama o freguês, o movimento dos dedos enche o saco de feijão e mostra as suas mãos calejadas e acostumadas à labuta. Ao tempo que ela grita, seus olhos falam. Mas nem todos enxergam o olhar de dona Maria, nem todos conseguem ver além de uma senhora jogada na calçada interrompendo o trânsito.
A feirante é invisível na Rua Oscar Ribeiro. Mesmo tão larga, mesmo com a rua sempre mostrando quem está ali, quem passa de carro anda como se fosse um pedestre. Velocidade controlada, olhos atentos ao vai e vem de pessoas atravessando sem temer aos automóveis. Se vacilar, kabum! O carro pode bater em uma das bancas de laranja que dividem a rua com o trânsito.
O motorista sempre olhará para o mercado. É sempre necessário se desviar dele. O mercado também está na rua. E a pessoa que passa precisa dividir com dona Maria as calçadas da Oscar Ribeiro. Desde os dozes anos, dona Maria ganha o pão de cada dia, no início na companhia da mãe que vendia no antigo mercado. Assim como os irmãos, dona Maria aprendeu a vender as verdurinhas que alimentou os cinco filhos que tivera e que hoje seguem profissões diferentes da mãe. Um é policial, outro professor e três estão estudando. Dona Maria é uma batalhadora. Mas dificilmente essa qualidade ficará visível aos olhos de quem passa. E se reconhecer o exterior do  mercado é difícil, imaginemos o interior.

Do lado de dentro há outra dona Maria. E, ainda, vários “seu Zé”. Tem dona Maria do queijo, seu Zé do artesanato; tem dona Maria do restaurante, seu Zé das verduras; tem dona Maria da roupa, tem seu Zé do toicinho; tem dona Maria do mocotó, tem seu Zé do Restaurante; tem Dona Maria das frutas, tem seu Zé do Peixe. Cada Zé e cada dona Maria dizem muito sobre o mercado.
José Carlos da Silva, o Zé do Peixe, diz muito sobre o que é o mercado. São trinta anos provendo o seu sustento dali. Os pés inchados, o fácil manejo do facão. Sangue é uma das cores que compõe a sua roupa que era branca, mas de tanta escama virou estampada. 
Quem olha para seu Zé vê um vovô simpático. Com o sorriso sempre aberto, ele sempre dá boas vindas a quem chega ao mercado.  Assim como todo vendedor do mercado, a lábia é a sua principal fonte de renda. Isso porque não é o peixe que “se vende”, são as histórias do pescador que vendem o peixe, geralmente histórias de pescadores e da região. E não precisa perguntar, basta apenas dizer: “quanto tá o peixe?”. Isso é suficiente para você, encantado com todas as lorotas, esquecer até o valor do peixe.
Seu Zé vende todo tipo de peixe, mas como uma bula de remédio sempre indica algumas contra indicações. Com o sotaque bem carregado, quase cantando questiona:
- E você é solteiro(a)?
Ele repete essa pergunta toda vez que alguém procura pelo peixe “caboje”. Isso porque seu Zé não quer causar problemas matrimoniais. Segundo ele, o “caboje” tem poder afrodisíaco.
- Quando você coloca o primeiro pedaço na boca, na mesa mesmo, você já sente “umas coisa estranha”, uns rabichos, uma vontade de...
- Mas é verdade seu Zé?, pergunta a freguesa.
- Oxe, tô dizendo menina. Cê tá pensando que tenho 29 filhos com sessenta e cinco anos de que jeito?
- E o senhor tem 29 filhos?
- A última tem seis meses. Uma princesinha. Quando crescer vai trabalhar aqui.
E como cada ser em si carrega uma crença. O caboje desperta a curiosidade, mexe com a fé, vamos levar, né?
Assim como seu Zé do peixe, dona Maria dos remédios vende pela crença. Em sua banca tem remédio pra tudo. São ervas medicinais, sementes, pó, sal grosso, óleos. E ela não só vende, ensina como preparar cada medicamento.
- O que a senhora mais vende?
- Sal grosso. Quem não quer afastar mal olhado?
- E a senhora já tomou banho de sal grosso?
- Claro, minha filha. Tenho 20 anos de mercado. Trabalho nisso desde quando trabalhava no antigo mercado, que ficava no Cais. Então, não posso deixar de proteger minha barraquinha. Toda semana jogo o sal grosso. E quase todo dia tomo banho carregado.
-  E funciona?
- Claro, o sal puxa “as coisa negativa”.

O  mercado Joca de Souza tem disso também. Não é só de barulho, de verduras e frutas que se ganha a vida. No mercado até crenças são vendidas. A fé é um grande álibi. O ambiente é assim, um infinito particular que se sobressai ao óbvio. Basta olharmos as donas Marias e seus Zés, porque cada um deles conta um pouco de nós.

Michelle Laudílio (texto)
Graduanda do 6º período de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Amanda Franco (foto)
Graduanda do 6º período de Jornalismo em Multimeios da UNEB

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

De Juazeiro a Petrolina, a Juazeiro...



Passam cerca de 35 mil pessoas diariamente na ponte presidente Dutra, que interliga as cidades de Petrolina e Juazeiro. Apesar de ter nascido em Juazeiro e ser de família baiana não tenho nenhuma familiaridade com a cidade. Na minha rotina diária de sair de Petrolina, atravessar a ponte com uma belíssima imagem do Rio São Francisco, passar em frente à lagoa do Calú, por alguns quebra-molas e chegar à faculdade, é o único conhecimento que eu tenho da minha cidade natal. Mas essa desatenção não é só minha, uma grande parte dos petrolinenses se encaminha a Juazeiro todos os dias para ir a alguma clinica, algum mercado, ou loja. A cidade - em si - lhes passa despercebida.

O hábito de ir sempre à cidade - exceto por obrigação ou necessidade - não acontece. É só experimentar perguntar “O que você acha de Juazeiro?” a alguém de Petrolina, que a resposta quase sempre é imediata e negativa: “Péssima”, “Desestruturada”, “Um caos”, ”De bom só a visão de Petrolina”. A diferença estrutural é o primeiro impacto entre as cidades. Ao chegar a Juazeiro temos a impressão de que estamos realmente no interior, ruas estreitas, prédios baixos, muitas pessoas andando na avenida, praças, bicicletas, casas antigas, motos, carrinhos de bebês, tudo misturado. Mas, porque essa negação da cidade co-irmã? Só pelas ruas estreitas e fachadas envelhecidas? O ar de Juazeiro seria diferente?

Um dia me peguei respirando profundamente para ver se a diferença estava no “ar”, e foi quando vi um outdoor escrito: “a maior loja do Brasil da Honda está em Petrolina”. Por um minuto, esqueci onde estava, e até os anúncios favoreciam Petrolina. O ar era baiano, mas a impressão era de que o rio separou uma única cidade. Nossa necessidade de defender nosso habitat é o responsável por essas visões deturpadas de algo desconhecido. Para entender Juazeiro é necessário ver sua geografia, entender a diferença na construção das duas cidades, e compreender que os becos e ruas estreitas contam uma história de mais de 130 anos, refletindo a diferença nos processos econômicos e históricos das duas. Devemos lembrar que estamos a 10 minutos de Juazeiro e não há 10 anos, passear na cidade e conhecer seus espaços é possível. Prestar atenção ao sorriso e ao jeito “tagarela” dos juazeirenses fará toda a diferença.

Lícia Loltran
Graduanda do 2º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB
Foto: Filipe Durando

E as lavadeiras do Angari?


Tristes “Angarys”, tristes “Angarys”, como já dizia o poeta Euvaldo Macedo, não te encontramos mais por aqui. O rio São Francisco não é mais banhado pelas águas “ensaboadas” das roupas das lavadeiras. Cadê as “mulheres sofridas de peles curtidas, de sonhos clementes” das canções de Edésio Santos? Aah, lavadeiras do Angari... As tuas mágoas não são mais lavadas por essas águas. Onde elas vertem agora? Onde está o vaivém dos teus braços, o balanço das roupas que te sustentam?

Enquanto uma mulher carrega bacias cobertas de roupas na cabeça, um poeta a contempla. Pura poesia! As cordas do violão de Edésio não seguem mais o compasso das tuas mãos entregues a panos e águas. Ele se foi... E vocês, onde estão, mulatas cachopas? Cansaram de bater roupas? Ou seguiram o poeta? Não vejo mais o brilho e a brancura das tuas almas ingênuas, puras e simples como Edésio dizia. 

Recorro ao Chronos para tentar encontrar as mulheres que outrora estiveram presentes nas poesias e canções juazeirenses. Aquelas que refletiam a alma da gente que pisa os solos ribeirinhos. É preciso recorrer ao Senhor do Tempo para encontrá-las, pois entre as casas coloridas, conglomeradas de hoje, vejo apenas canoas “beirandeiras” solitárias. Onde estão vocês, mulheres de pescadores, que só encontro agora nas canções de Edésio? O Angari não é mais o mesmo. Falta o gingado dos teus corpos com trouxas na cabeça e sonhos nas mãos. Nos varais não vemos mais o “amor por tantos sonhos”. Não sabemos onde eles foram pendurados. O rio segue o seu percurso, a ponte está no mesmo lugar, os pescadores pescam à noite, talvez agora sem medo do Nego D`água. Só as lavadeiras não estão.

Hoje, vejo meninos correndo, homens conversando, pessoas passando, mulheres indo e vindo, não mais com roupas nas cabeças. Agora elas estão em peixarias, nos balcões de bares e mercadinhos. Não são as mesmas das canções de Edésio. Elas mudaram, as músicas mudaram, a cidade mudou. O Angari dos poetas não existe mais. Os vapores se foram, ninguém os espera. Alguém ainda faz versos ao arrebol, ou isso ficou entre Edésio e João Gilberto, junto ao cais? Se ainda existem esses raros, meus olhos saudosistas não o veem. Edésio olhou Juazeiro com os olhos de poeta que o comprazia. Ele viu a beleza, a poesia, a ternura, a ponte imensa sobre o rio, as velas brancas canoeiros e barqueiros e, junto a tudo isso, as lavadeiras, as lavadeiras do Angari.   

Onde encontrá-las? Vou ao Angari, ele não é mais o mesmo. Não as encontro, não as vejo conforme a lírica de Edésio. E, imersa em recordações poéticas, desconheço o lugar em que piso. Sem eira nem beira, vou beirando às margens do rio. E de muito longe me vem uma música que diz, justamente, o que eu gostaria de ter dito. Não sei quem a compôs, mas, mesmo assim, não consigo deixar de lembrá-la. Vou seguindo e cantando a canção, que emerge do mais íntimo das minhas dores: As lavadeiras do Angari / Já não se encontram mais por aqui / As lavadeiras do Angari / Já não se encontram mais por aqui / As lavadeiras do Angari / Já não se encontram mais por aqui / Amigo tudo isso acabou / E o tom já não é o mesmo ao arrebol / Ficou somente a história / Daquele tempo bom...

Veja: Canções que retratam o Angari

Edilane Ferreira da Silva
Graduanda do 6º período do Curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Canções que retratam o Angari

AS LAVADEIRAS DO ANGARY
 (Edésio Santos e Jota Mildes)
Quanta beleza e poesia
Quanta ternura existe aqui
A ponte imensa sobre o rio
Velas brancas canoeiros e barqueiros
E as lavadeiras
E as lavadeiras do Angari
As lavadeiras do Angari
E as lavadeiras do Angari
E as lavadeiras do Angari
Mulatas cachopas
Batendo roupas
Tanto brilho e brancura
Tem a alma ingênua
Simples e pura de nossa gente
São lavadeiras do Angari
São lavadeiras do Angari
São lavadeiras do Angari
São lavadeiras do Angari
Mulheres sofridas de peles curtidas
De sonhos clementes
Mulheres que sabem
Descobrem, entendem
Quantas mágoas são lavadas
Nessas águas
Nos varais quanto amor por tantos sonhos
Nos varais quanto amor por tantos sonhos



HOMENAGEM
(Compositor desconhecido)


Edésio me permita essa canção
É a pura expressão do coração
Recordo aquele tempo
Aquele tempo bom
Fazia sol
E o meu canto maior era em dó
Edésio companheiro de ilusões
Você me revelava o sol
Muitas paixões
Lembro ainda menino
Buscando sensações
No violão tocava as mais lindas canções
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
Vapores atracando junto ao cais
Você fazendo versos ao arrebol
Versos tão bonitos
Você e João a sós
Cantavam sua gente, o rio e o por do sol
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui   
Amigo tudo isso acabou
E o tom já não é o mesmo ao arrebol
Ficou somente a história
Daquele tempo bom
E a pura melodia
No mesmo tom maior
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
Vapores atracando junto ao cais
Você fazendo versos ao arrebol
Versos tão bonitos
Você e João a sós
Cantavam sua gente, o rio e o por do sol
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
Amigo tudo isso acabou
E o tom já não é o mesmo ao arrebol
Ficou somente a história
Daquele tempo bom
E a pura melodia
No mesmo tom maior
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui
As lavadeiras do Angari
Já não se encontram mais por aqui

A arte de narrar histórias

Desde os tempos remotos, o homem necessita de narrativas, necessita contar a outro o que lhe sucedeu, esmiuçando em detalhes como aconteceu, e procurando encontrar respostas para entender o que acontece ao seu redor. Nessas narrativas, muitas vezes a imaginação se confunde com o real, a história ganha contornos ficcionais ou apela para o imaginário, a sensibilidade e a estética. Nasce o escritor. Nem verdade nem mentira, apenas efeitos estéticos para criar uma trama, uma história que fale sobre nós e nos identifique.

Em outras ocasiões, procuramos narrar acontecimentos reais, fatos ocorridos, o presente se sucedendo em cenários reais, embora algumas vezes o real nos pareçe extraordinário. Nessas narrativas, procuramos retirar véus que encobrem a realidade, procuramos desnudar o real para que um público determinado acompanhe a cena como se estivesse vivenciando-a.

As cenas falam de acontecimentos comuns no cotidiano,mas que irromperam na esfera local como uma novidade, algo que não se esperava que acontecesse e se sucede como uma novidade, uma notícia. Há outros acontecimentos que se sucedem de forma tão veloz que perde o caráter de novidade e ai precisamos retirar  - ainda mais - os véus que encobrem o real, precisamos compreender os impactos atuais e prospectar tendências.

Deixamos de apenas narrar um acontecimento para dar um testemunho, passamos de simples narradores a jornalistas, cuja identidade é mais do que uma mera função social de reportar acontecimentos. Jornalistas são intelectuais com um saber próprio, com um domínio de uma técnica -  a de narrar acontecimentos que se sucedem na atualidade, buscando as suas conexões e impactos – e são responsáveis por criações culturais, seja o produto jornal, televisão, o rádio, o blog, o site, entre outros suportes para veiculação de suas narrativas sobre o real.

A esfera da cultura é uma das dimensões do fazer jornalístico. Ao trazer à luz acontecimentos reais que não são perceptíveis por todos, ao selecionar aspectos dessa realidade, ao interagir com fontes,  ao recriar fatos ou ao torná-los uma criação repetitiva, pois a repetição tem sido cada vez mais atual no mundo em que lemos tantas notícias, o jornalista opera com uma criação cultural, que se destina para a esfera social e para um público consumidor. 

Essa criação cultural se alicerça em fatos reais, com operadores que buscam apurar o que se vê,  comprovar os fatos, juntar as diversas versões e trazer uma da dada realidade ao leitor. Nessa busca, o jornalista deve ser um repórter nato, aquele que viaja, olha, conversa e escuta, como fazia o historiador Heródoto, um dos primeiros repórteres a desvendar o mundo antigo há mais de 2.500 anos.  Nas suas viagens pelo mundo antigo, Heródoto procura conhecer, compreender e descrever o que ele vê. 

Podemos procurar outras explicações para justificar o jornalismo como essencial à contemporaneidade, mas as competências do buscar, do ver, ouvir, compreender e nos oferecer histórias são inerentes a quem deseja ser jornalista. E foram para cumprir esses atributos do fazer reportagem que nasceram algumas das criações jornalísticas narradas nesse blog. São aventuras na reportagem crônica, no conto e no perfil, possibilidades de entrelaçar o jornalismo com a literatura.

Foi uma aventura em busca de histórias singulares a partir do nosso locus – a nossa cidade. Para conhecê-las, basta ler e comentar. Claro, todo jornalista precisa de um leitor e precisa ser lido, a informação precisa circular. Ops! Aí, já adentramos em  uma outra dimensão da cultura do jornalismo atual. Por ora, aprecie o que oferecemos em doses homeopáticas de narrativas sobre o real.

Andréa Cristiana Santos 
Jornalista e Prof. do DCH III